ONGs e projetos sociais na formação de atletas

Marcio Zeppelini (*)

O esporte ajuda a formar atletas e, principalmente, cidadãos. Em época de Olimpíadas no Brasil, esta máxima ganhou ainda mais importância, revelando o papel fundamental das organizações da sociedade civil e de seus projetos sociais na inclusão social. 

 

Ao contrário de potências como os Estados Unidos, onde educação e esporte seguem atrelados desde o jardim de infância até a faculdade, o Brasil infelizmente nunca teve políticas públicas sérias, nem para formar atletas, nem para detectar talentos. Neste sentido, a Rio 2016 pode ser o impulso que o nosso país precisa para desenvolver o esporte. 

 

Não há estatísticas sobre o número de projetos sociais envolvendo o esporte no Brasil. Além das doações de pessoas físicas e de patrocínios que por ventura possam obter, as OSCs que gerenciam esses projetos podem ainda captar recursos pela Lei de Incentivo ao Esporte, sancionada em 2006, que permite às empresas destinar até 1% do Imposto de Renda para financiar projetos desta natureza. 

 

Entre essas OSCs destacam-se também entidades fundadas por atletas e ex-atletas, que atuam cotidianamente para a formação de atletas e cidadãos. Um dos mais recentes casos de engajamento está em Praia Grande, com o Instituto Projeto Neymar Jr., onde são atendidas 2.470 crianças de 7 a 14 anos e suas famílias, com alcance de 10 mil pessoas atingidas pelo trabalho realizado. O atacante do Barcelona é, hoje, segundo o programa Athletes Gone Good, da ONG DoSomething.org, o quinto maior doador a causas sociais entre os atletas de todo o mundo. 

 

Felizmente, para os brasileiros, os projetos sociais têm sido eficientes no trabalho ao qual se propuseram. No Rio de Janeiro, por exemplo, meninas de 7 a 19 anos da rede pública de ensino aprendem basquete e hockey sobre a grama, no projeto Vem Ser, localizado na sociedade Germânia, no bairro da Gávea e no complexo da Rocinha, em São Conrado. 

 

Também na Cidade Maravilhosa, o ex-jogador de futebol Jorginho fundou o Instituto Bola Pra Frente, no bairro de Guadalupe, onde atende 900 crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, moradores do Complexo do Muquiço. Além de aulas de futebol, são desenvolvidas atividades de formação para o mercado de trabalho, prevenção ao uso de drogas, alcoolismo e doenças, além do incentivo de ética e relações interpessoais. 

 

Decerto estamos bem servidos na formação de atletas para o desporto paraolímpico. A Associação Toledense dos Atletas em Cadeira de Rodas (Atacar), sediada no Paraná, proporciona aulas de handebol e badminton (aquele com raquetes, rede e peteca) adaptados para pessoas com deficiência física. 

 

Fundada pelos ex-jogadores de futebol Raí e Leonardo, a Fundação Gol de Letra, que atua na Vila Albertina, em São Paulo, e no Caju, no Rio de Janeiro, promove a integração entre práticas educacionais e de assistência social. Os programas são voltados ao atendimento de crianças, adolescentes e jovens, aliados ao desenvolvimento comunitário e de suas famílias. A entidade realiza atividades de expressão oral e escrita, cultural, artística e corporal; educação para o trabalho; e modalidades esportivas. 

 

Dessas e de outras organizações do Terceiro Setor sempre surgem atletas que se destacam no cenário do esporte. É o caso da cubatense Juliana Paula Gomes dos Santos, campeã pan-americana nos 1.500 metros (Rio/2007) e nos 5.000 metros (Toronto/2015), que estará na Rio 2016. Ela começou a treinar na escola ainda aos 12 anos, sendo encaminhada para o Esporte Clube de Cubatão, onde desenvolveu suas potencialidades. 

 

Outro caso emblemático é o da recordista sul-americana pan-americana dos 200 metros e do revezamento 4x100 metros, a cearense Ana Cláudia Lemos Silva. Ela foi descoberta aos 13 anos, em Criciúma (SC), para onde se mudou ainda muito nova. Jogava futebol e, graças à sua velocidade, foi convidada a disputar uma competição de atletismo, representando a escola. Acabou sendo levada para o projeto Correndo pelo Futuro, da Fundação Municipal de Esportes de Criciúma. 

 

Outro exemplo que veremos nas Olímpiadas é o da esgrimista Bia Bulcão, saída do Centro de Aprendizagem Desportivo, projeto criado com o objetivo de mostrar de forma lúdica e recreativa 12 modalidades para sócios de 3 a 11 anos. Hoje, dos 4.663 atletas do CAD, 296 são de alto rendimento. 

 

Contra todos os prognósticos e a falta de incentivo governamental, as OSCs são essenciais para o sucesso do nosso esporte aqui e no exterior. E, como nem todos conseguem ser atletas de ponta, saem dessas entidades cidadãos de bem. O que, convenhamos, é mais valioso que qualquer medalha de ouro. 

 

(*) Marcio Zeppelini é presidente do Instituto Filantropia, editor da revista Filantropia e diretor-executivo da Zeppelini Editorial. Idealizou a Diálogo Social, a Diálogo Digital e a Rádio Tom Social. É palestrante e consultor em comunicação e marketing para o Terceiro Setor.



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